Fim do acordo de grãos do Mar Negro promete dor para os mais necessitados da África

O anúncio da Rússia de que estava se retirando de um pacto que permitia que os grãos ucranianos deixassem os portos do Mar Negro causou um arrepio nos países mais pobres, muitos dos quais já estão sofrendo com a inflação, choques climáticos e conflitos.

O acordo de grãos do Mar Negro, negociado pelas Nações Unidas e pela Turquia em julho de 2022, ajudou a reduzir os preços globais dos alimentos e permitiu que as agências de ajuda tivessem acesso a centenas de milhares de toneladas de alimentos em um momento de necessidades crescentes e financiamento escasso.

Na capital da Somália, Mogadíscio, os preços do trigo, que haviam dobrado quando a Rússia invadiu a Ucrânia, caíram um quarto após a assinatura do acordo. Após o anúncio de Moscou, todos, de comerciantes a padeiros e vítimas dos conflitos armados e secas do país, sentiram uma sensação de pavor.

“Não sei como vamos sobreviver”, disse Halima Hussein, mãe de cinco filhos que vive em um acampamento lotado de Mogadíscio para pessoas deslocadas por anos de chuvas fracas e violência de militantes islâmicos.

“As agências de ajuda fazem o possível para sustentar nossas vidas. Elas têm muito pouco para dar”, disse ela.

Alguns comerciantes em Mogadíscio projetaram que uma saca de 50 kg de grãos de trigo poderia subir dos atuais US$ 20 para quase US$ 30.

Korir Sing’Oei, secretário permanente do Ministério das Relações Exteriores do Quênia, que também enfrenta a pior seca no Chifre da África em décadas, disse que os preços dos alimentos, que já estão em níveis históricos, subirão ainda mais.

“Commodities que costumavam custar uma libra ou duas agora custam quatro, os preços vão dobrar”, disse ele à Reuters.

A Somália recebeu 84.000 toneladas de trigo da Ucrânia em 2022, ante 31.000 toneladas em 2021, de acordo com dados comerciais da ONU, conforme os doadores intensificaram a assistência para combater a fome iminente em certas áreas.

Os países em melhor situação também podem sentir o aperto. O acordo beneficiou o Egito, normalmente o maior importador de trigo do mundo, já que o aumento dos preços globais do trigo após a guerra aumentou a pressão financeira sobre o governo, que fornece pão subsidiado para milhões de pessoas.

Também causou um aumento nos preços do pão não subsidiado, enchendo os bolsos das famílias que já haviam suportado anos de austeridade.

O ministério do abastecimento disse à Reuters no mês passado que esperava que o acordo fosse estendido “por causa de sua importância para acalmar os mercados globais”.