CEO da Exxon diz que empresa tem tecnologia para o petróleo caro da Venezuela, 20 anos após ser expulso. Reversão total?

Eis a reviravolta: Darren Woods, CEO da Exxon Mobil, disse hoje em call de resultados que a empresa tem a tecnologia necessária para produzir o petróleo de alto custo da Venezuela.

O que torna isso surreal é o contexto:

Há poucas semanas, Woods chamou a Venezuela de “não-investível” (uninvestable) numa reunião na Casa Branca – fala que levou uma repreensão pública do presidente Donald Trump.

A Exxon foi expulsa/nacionalizada pelo governo Chávez há quase 20 anos.

Agora, ele muda o discurso, diz que acredita no compromisso do governo dos EUA em estabilizar o país e “fazer a transição para um governo democraticamente eleito”.

Disse que a Exxon está “disposta a enviar uma equipe técnica” para visitar o país.

A “vantagem tecnológica”:

Ele citou a experiência com areias betuminosas no Canadá, afirmando que podem trazer uma abordagem que leva a produção de custo mais baixo e maior recuperação de petróleo – ou seja, tornar os barris venezuelanos mais econômicos.

Bônus Geopolítico: Woods ainda deu um insight importante: mudanças na Venezuela poderiam criar um ambiente operacional mais favorável perto da Guiana, onde a Exxon tem o mega-bloco Stabroek (parte dele sob force majeure devido à disputa de fronteira com a Venezuela).

Ou seja: é um sinal fortíssimo de que, nos bastidores, as negociações entre EUA, o governo atual da Venezuela e as petroleiras estão super aquecidas. O jogo político pode estar virando.

Isso não é sobre tecnologia, é sobre geopolítica pura. O governo dos EUA precisa de um fluxo de petróleo estável e não russo, a Venezuela precisa desesperadamente de investimento e sair do isolamento, e a Exxon quer voltar ao jogo com um acordo muito melhor que o antigo. O “compromisso com a democracia” é o verniz necessário. Trump deu o aval, a Exxon obedece.

Verniz? É hipocrisia deslavada. Eles nos saquearam por décadas, foram expulsos, e agora voltam com o papo de “salvadores tecnológicos” enquanto apoiaram sanções que estrangularam nosso povo. Querem nosso petróleo de graça de novo. Que se mantenham longe.

Como engenheiro de petróleo, essa parte técnica faz sentido. O crude pesado venezuelano é um desafio imenso, parecido com o do Canadá. A Exxon domina as tecnologias de recuperação térmica e de diluição (SAGD, etc.). Se alguém conseguir baixar o custo de produção lá, é uma das majors. A questão nunca foi o “se”, mas o “quanto custa” e “sob que riscos políticos”.